quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Os direitos e garantias dos cidadãos






Há dias um criador de moda construiu uma estrutura que era atrelada a uma modelo. No seu conjunto tinha a forma de um cavalo, constituindo o corpo da modelo a parte dianteira. Houve críticas de algumas mulheres que consideraram atentatório da dignidade feminina. Outras nem por isso, porque consideraram ser apenas uma demonstração de um criador que chama a sua obra de moda conceptual. Se olharmos para as mulheres que fizeram estes dois tipos de comentários, poderiamos com certeza verificar que as primeiras são mulheres na casa dos quarenta, enquanto que as outras são mulheres na casa dos vinte.
Quando socialmente em Portugal as coisas se complicam, algumas pessoas começam de imediato a defender que o país precisa doutro Salazar, que isto é uma república das bananas e que os políticos não são pessoas sérias. Se pudessemos fazer uma avaliação das pessoas que emitem estas opiniões, iriamos verificar que na sua maioria seriam pessoas abaixo dos 30 anos, ou seja são pessoas que nunca viveram no tempo do anterior regime.
Claro que quem nasceu em liberdade considera isso um direito natural , quem nunca foi segregado por ser diferente considera a igualdade como um direito natural, quem nunca foi maltratado considera a dignidade como um direito natural.
Seria impensavel para essas pessoas perderem a liberdade por causa das suas ideias, terem de pagar uma licença para poder ter um isqueiro, pagar taxa para poder ouvir radio e ver televisão, não poderem ir a um conserto rock ou manifestarem-se no Marquês de Pombal após a vitória da nossa selecção sem que policia de intervenção estivesse lá para prender os que vinham com um copo a mais ou dar umas bastonadas para manter a ordem, não poder sair da escola para ir ao café da frente beber um sumo sem aparecer a policia e levar o pessoal de volta à escola, não poderem ir passar umas férias ou fazer uma viagem de finalistas fora do país porque só era concedido passaporte a um grupo restrito de pessoas. Não se usar biquini na praia como aconteceu até 1968, a mulher ser uma propriedade do marido como aconteceu até 1974 as enfermeiras não se poderem casar nem usar vestuário impróprio (calças) como aconteceu até 1960.
Os direitos não são naturais, foram conquistados às vezes com muito sofrimento e até sangue, será natural que os que lutaram por eles os valorizem mais do que os que pensam que eles caiem do céu, como a água da chuva. Quando os vejo saudosos de uma coisa que não conhecem só me apetece dizer como o Senhor Jesus.” Pai perdoa-lhes que eles não sabem o que fazem “ , neste caso o que dizem.

Saudações

O Viajante

2 comentários:

Carla O. disse...

Sabes que isto é uma coisa que me preocupa, daí que um dos meus objectivos é dar a saber e estimular nos meus filhos a vontade de saber como era a vivência antes e o que foi necessário fazer, passar, aprender, para se chegar ao que eles têm hoje e se lhes apresenta como garantido.
bjs

Shin_Tau disse...

A minha experiência é um pouco diferente, quem costumo ouvir falar desses tempos são as próprias pessoas que os viveram. E a mim, que não os vivi mas sei o que eles representaram enquanto direitos e garantias essências que não existiam, faz-me muita confusão.
Costumo pensar, quando oiço isso, que as pessoas, quando estão a viver momentos mais díficeis, têm uma tendência natural para desejar o que tiveram, onde estavam limitadas mas se sentiam mais seguras. Por exemplo, se têm um segundo casamento que corre mal, o primeiro já é visto com outros olhos e no fim até nem era assim tão mau.
Sinceramente, não sei o que os leva a fazê-lo, mas acho, como o Viajante, que não sabem o que dizem.
Quanto à educação dos filhos, é sem dúvida importantíssimo que as crianças de hoje saibam a História do direitos e como eles foram conquistados, os pareceme que hoje queremos os nossos direitos mas não queremos abdicar de nada no caminho. Eu sinto que hoje só se falam dos direitos e muito pouco dos deveres.

Obrigada pela oportunidade de dessabafo sobre um assunto tão importante actualmente. Gostei muito do seu texto, bela análise reflexiva.

Um bom fim-de-semana!